11 Comentários
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Avatar de Maria Luísa

Obrigada pelo serviço público e também por desmistificares esta moda da literacia financeira. Não é que não seja importante perceber de finanças, claro que é, mas sinto que nos últimos anos surgiu uma tendência que deturpa um pouco a ideia da literacia financeira. E se, no caso da falácia da meritocracia, já não cai tanta gente, no discurso fácil da literacia financeira acho que é diferente. Muita gente cai. Por exemplo, quando o senhor do programa Contas Poupança fala em poupanças de valores que parecem pequenos, mas que são muito na economia das famílias, e como essa poupança, quando nasce um filho, se for aplicada num ativo financeiro qualquer se vai multiplicar e, quando o filho tiver 28 anos, já terá uns milhares de euros, dinheiro para dar entrada numa casa e por aí fora. Sabe lá ele como vão estar os preços das casas daqui a 30 anos.

Mas pior é achar que uma família portuguesa com baixos rendimentos, que são a maioria, e não falo só do salário mínimo, porque até o chamado salário médio é um rendimento baixo tendo em conta o custo de vida, consegue pôr de lado umas centenas de euros por mês. Enfim, é mais um daqueles casos em que se tenta vender uma ideia que roça a lavagem cerebral.

Avatar de Vicente Ferreira

Eu é que agradeço o feedback. Não conheço o programa, mas quando se subestima a evolução do custo de vida de uma parte significativa da população, é difícil não subestimar a dificuldade em poupar. A distribuição da poupança é muito desigual e as desigualdades tendem a reproduzir-se quando não há respostas coletivas (ou quando são insuficientes, como acontece em Portugal).

Avatar de Edi M

Acho que não percebi a ideia do primeiro parágrafo. O que é que tem as Contas Poupanças a ver com a falácia da literacia financeira?

Se considerarmos o salário médio (que é um péssimo indicador) se 1700 euros, não acho que seja um mau rendimento.

Avatar de Maria Luísa

O Contas Poupança é uma rubrica da SIC Notícias dedicada à literacia financeira e às finanças pessoais. Há dicas úteis, como gerir o IRS, renegociar contratos ou reduzir encargos, mas em alguns casos as recomendações parecem-me pouco realistas para a maioria das famílias, sobretudo para quem aufere o salário mínimo ou o dito salário médio. Muitas vezes sugere-se que, com poupança e investimento, se consegue acumular riqueza, ignorando que para a maioria nós, com rendimentos modestos e custo de vida elevado, isso é quase impossível. O dito salário médio de 1700 euros brutos corresponderá a cerca de 1200/1300 euros líquidos após os descontos obrigatórios, tornando difícil poupar de forma significativa para poder investir. Este discurso de literacia financeira (e meritocracia) tende a transmitir a ideia de que quem não prospera é porque não se esforça, não poupa, gasta mais do que deveria ou não sabe investir, esquecendo as limitações reais de grande parte da população.

Avatar de Edi M

Isso não invalida a literacia financeira e Portugal é um país pouco produtivo (com mais salários e com outras métricas preocupantes a nível de um país de leste) e com uma taxa de literacia financeira muito abaixo da média.

É verdade que a vida é difícil e pobre, mas parece-me mais ajustado perceber porque é que isto acontece.

Movimentos e rubricas como Contas Poupanças ajudam a mudar a perspetiva, existem outros exemplos e movimentos que não. Isto porque a literatura financeira (globalmente) teve um boom depois do COVID, não foi só em Portugal.

Um milhão de pessoas compra fundos e ações da mesma forma que o mesmo número compra raspadinhas.

Mas enfim, em suma, Portugal é um país pobre que dificilmente vai sair do buraco onde está.

Avatar de André Martinho

Obrigado por este artigo Vicente, bem explicado e fundamentado. As fontes e gráficos ajudam muito.

Não estava a par de impostos praticados sobre a riqueza em Espanha e na Suíça, irei procurar mais. Mas vejo que não incluíste o caso dos Países Baixos, que é para mim um bom exemplo de como taxar riqueza. Deixo um link do ministério das finanças holandês sobre como é calculado:

https://www.belastingdienst.nl/wps/wcm/connect/en/income-in-box-3/content/box-3-provisional-assessment-2025

Avatar de Vicente Ferreira

Obrigado pelo feedback e pela referência ao caso dos Países Baixos, de que não estava a par. O modelo é interessante. Este parágrafo deixou-me com dúvidas: "For your provisional assessment, we use notional percentages according to the transitional legislation. These are closer to the actual return percentages. We base this on the actual distribution of the different types of assets you hold: bank balances, investments and other assets and debts. If your actual return turns out to be lower than the notional return, we will adjust your Box 3 income in your income tax return for 2025."

Avatar de André Martinho

Em 2025 o valor estipulado (médio?) para investimentos é 5.88%. Caso o retorno real da pessoa no final do ano seja abaixo do estipulado, ela pode submeter o retorno real e pagar impostos sobre o retorno real.

Por exemplo, se tem 10.000€ em investimentos e valorizaram 3%, vai pagar 36% desses 3% em impostos e não dos 5.88%.

Caso seja acima dos 5.88%, não é feito ajuste.

Este ajuste é feito nos anos seguintes, daí o provisional assessment.

Era esta a dúvida?

Cumprimentos

Avatar de Vicente Ferreira

Obrigado pelo esclarecimento. A minha dúvida é se o imposto se aplica sobre a valorização da riqueza líquida em si (como nos outros três casos da Europa), ou apenas sobre rendimentos efetivamente realizados a partir das poupanças/investimentos. No fundo, é dúvida sobre a diferença entre valorização e retorno. Ex: se uma pessoa tiver ações cujo valor de mercado sobe 10% num ano mas não as vender, não obtendo retorno, paga imposto pela valorização dos ativos, ou não paga porque pode comprovar que não obteve nenhum rendimento efetivo nesse ano?

Avatar de André Martinho

Paga imposto pela valorização dos ativos, mesmo não realizando os ganhos. Como tal, aquando da venda não há imposto sobre ganhos capitais, uma vez que estes são taxados anualmente.

Avatar de Carlos Ataíde Ferreira

Simples e claro